sexta-feira, 31 de julho de 2009

Deus falou comigo e tinha bafo de cachaça.

Acabo de viver uma história linda. Fim de tarde e eu aqui sem emprego, com 55 centavos no bolso, desiludida com esta vida ingrata. Resolvi dar uma caminhada pelos arredores para distrair e ver se eu encontrava uma luz que me orientasse na vida. Acabei indo parar no supermercado, meu lugar predileto para passeios. Fui logo para a fila do "caixa rápido", sempre a mais lotada, mas com um caminho cheio de guloseimas baratas (quem sabe uma por 55 centavos?), quando ouço uma pessoa meio agitada se aproximando. Em seguida um tapão no meu ombro. Era uma senhora, no máximo 50 anos, completamente bêbada e com bafo de cachaça. Começou a falar comigo. "Tu. Tu é uma boa pessoa. Eu vejo que por dentro tu é pura bondade, uma pessoa humide." Não parava: "Eu sei quem tu é. Sabe, eu olho pra ti e eu sei tudo. Sabe o que tu é? Uma atriz! Tem cara de atriz. Se eu fosse do teatro eu te chamava. Eu gostei muito de ti. Sabe como é? Atriz? Cara de atriz?"
Ela disse isso e seguiu para o caixa para pagar as cervejas. Eu não consegui comprar nenhum doce por 55 centavos, mas saí de lá com a resposta que há tanto tempo eu esperava.

domingo, 17 de maio de 2009

Afinal o que está acontecendo?

Não consigo parar de pensar: por que eu, meus colegas de faculdade e a grande maioria das pessoas que eu conheço não conseguem ter uma vida profissional satisfatória? Por que tem tanta gente formada fazendo (ou tentando fazer, como eu) uma outra graduação? Por que depois de formados nós ficamos sem saber o que fazer quando ninguém quer nos dar emprego? Escrevo sobre isso porque é gente demais nesta situação que parece não ter saída. Será culpa do Ministério da Educação que aprova universidades a torto e a direito, gerando montes e mais montes de recém formados a cada semestre? Será culpa dos professores da universidade que são pagos para nos dizer que tudo é possível, que o mercado é lindo? Será que a culpa é nossa mesmo? Será uma consequência do excesso de gente que a falta de um controle de natalidade propicia?
Muito se diz que a nossa geração, essa que nasceu nos anos 80 é molóide, é passiva e incapaz de tomar decisões tampouco atitudes. Eu concordo. Mas se estamos todos (quase todos) no mesmo barco, o que vai acontecer? a gente não deveria fazer alguma coisas, uma rebelião, sei lá?
Eu fico triste em saber que a gente perde anos e mais anos fazendo graduações sem saber se vai ter algum retorno, se vai ter as coisas que gostaria de ter - frutos do trabalho. Não é legal fazer uma faculdade para depois acabar vendendo incríveis perfumes a 46 reais nem trabalhando numa loja qualquer. Não desmereço quem vende os perfumes ou trabalha na loja, mas perder anos de faculdade pra acabar nisso não está certo. Então, o que está acontecendo?

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A convenção de 1893

No remoto ano de 1893, alguns homens influentes de algum lugar do planeta se reuniram para uma conversa sigilosa. Preocupados, todos eles observavam a mesma coisa: suas esposas, suspirosas, pareciam insatisfeitas com o casamento, aquela vida de privações, de cuidar da casa e das crianças... vai ver estavam se dando conta de que casar não era vantagem. E se elas conversassem umas com as outras e decidissem fazer uma rebelião? Mudar tudo? Mas um destes nobres senhores, astuto disse aos amigos que este problema era de fácil solução. As mulheres, ingênuas e ignorantes acreditariam e seguiriam à risca qualquer baboseira que lhes fosse dita e porcamente explicada. Juntos, pensaram e debateram e decidiram meios de incutir na cabeça de suas senhoras e até mesmo de suas filhinhas uma idéia infantil, mas que surtiria efeito para todo o sempre. Bastava fazê-las acreditar que só as mulheres bonitas e carnudas(sensuais) seriam cobiçadas pelo sexo oposto, e que ser uma mulher "feia", bigoduda, pelancosa a depreciaria, condenando-a a uma vida de solteirice e solidão. Era preciso fazê-las acreditar que o casamento não era ruim, que se houvesse um marido interessado era sinal de que era uma mulher formosa como uma borboleta. Mexer com a vaidade. Mostrar que ser solteira não era um sinal de liberdade, mas sim de fracasso, de ser menos do que as outras. Marotos, aqueles senhores sabiam que as próprias mulheres boicotariam umas às outras, que ficariam se comparando e criando coisas para diminuir as demais concorrentes, coisas ameaçadoras como a expressão "ficar para titia". 
As vantagens nisso tudo seriam ainda maiores: preocupadas em se embonecar, não pensariam muito em nada. Provavelmente nem pensariam. E ficariam cada vez mais belas, como bonecas eróticas prontas para satisfazer os desejos masculinos.
Certo, a história da convenção obviamente é delírio da minha cabeça. Mas pensando bem dia desses, acho que só uma história como estas justifica essa coisa toda que vemos hoje. As mulheres todas enlouquecidas pela beleza, pela gostosura, perdendo tempo, perdendo montes de coisas...e sempre um cara feio e barrigudo olhando com desdém e avaliando qual a mais gata. Todas querendo casar e ter filhos sem nem mesmo pensar para que querem casar e ter filhos. E os barrigudos aí, só avaliando.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Tudo o que eu quiser o cara lá de cima vai me dar

Eu sou da geração que assistia o Xou da Xuxa. A Xuxa dizia que a gente tinha que acreditar nos nossos sonhos, e a gente acreditava nela. Eu acreditava nela. Poucos anos depois, quando eu estava ali pela puberdade, fiquei obervando a vida das pessoas por aí. Ví que os adultos trabalhavam em lugares monótonos, tinham famílias chatas, com crianças chatas e faziam programas chatos do tipo ver o Domingão do Faustão. Comigo não era assim, porque minha família é um pouco diferente. "Ainda bem",  pensava eu. "Quando crescer, não quero ser como estas pessoas". Eu queria trabalhar em alguma coisa legal, queria nunca ter filhos, porque crianças além de chatas são cruéis, queria nunca ter que ver certas coisas na TV, sentada numa poltrona com cara de cu.


Fiz uma faculdade e até hoje me pergunto se eu deveria ter feito isso mesmo, se eu não deveria ter tentado outra coisa, se eu não deveria estar cursando outra coisa hoje mesmo. Mas no fundo sei que não adianta. Faculdades são ruins, seja qual for. A desilusão sempre é grande, especialmente quando chega a hora de procurar trabalho. É preciso lidar com a insegurança, o que não dá muito certo e ter a mais plena consciência de que as pessoas não estão a fim de pagar aquilo que a gente merece ganhar, porque afinal, todo trabalho é chato. Você pode até gostar de fazer uma determinada coisa, mas no momento em que ela vira um trabalho onde alguém vem dizer como tem que ser feito, mela tudo.  No fim, fazer o que gosta não vale a pena hoje em dia. A gente tenta fazer bem feito, se desespera quando não consegue alguma coisa, se preocupa, e no fim, nunca tem reconhecimento, sem falar que tem sempre um cara que parece ser muito melhor fazendo a mesma coisa. Eu estava observando as pessoas de novo, e concluí que o melhor a fazer é arranjar um trabalho monótono mesmo, do tipo que paga um salário meia boca e não traz preocupações em fazer bem feito. Mesmo assim, tem que ter sorte para conseguir arrumar um emprego, qualquer um.


Mesmo não tendo as crianças chatas e o Faustão, o que já me deixa feliz, posso dizer que, de certo modo, estou perdendo a batalha. Eu e muita gente por aí. Não dá para ter esperanças de que as coisas vão melhorar. Este tipo de pensamento é ingênuo, é frustrante quando se vê que não acontece, que as pessoas não querem melhorar as coisas, nunca. Eu podia estar escrevendo palavras bonitinhas, destas que as pessoas gostam, e que encorajam. Mas isso é uma tremenda hipocrisia. O que não entendo é essa dificuldade que as pessoas têm de admitir que as coisas vão mal sim, que tudo anda muito errado e que não parece que alguma coisa vá melhorar. Essa dificuldade de encarar coisas ruins também está errada. E está impedindo qualquer chance de melhorar qualquer coisa, pois é na frustração que se procura uma outra saída. Ninguém quer ser um frustrado, um loser, um ninguém. Por isso, aqueles que o são não conseguem assumir isso. Todo mundo foi rei na última encarnação. Todo mundo acha que é especial, logo deve estar tudo bem. Não. Não está. 

segunda-feira, 23 de março de 2009

O resgate das palavras perdidas

Com a babaquice generalizada e os modismos do século XXI, algumas palavras estão sumindo. É preciso resgatá-las do limbo enquanto é tempo. Listarei algumas das principais:
Melhorar (agora tudo é otimizar), diminuir (agora é tudo minimizar), cabeleireiro (hair designer não existe), idoso (para com isso de "melhor idade"), negro (tudo é visto como racismo), confeiteiro (cake designer sucks), portátil (não existe mais, o que tem agora é "portabilidade e muitas outras palhaçadas terminadas em "bilidade"). Coisa séria.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Te odeio, Brasil!

Estou ressucitando este blog. Não sei mais o que fazer, estou desesperada. Nos últimos 7 dias, todos os noticiários, sites noticiosos e coisas do gênero só falaram em um assunto: Ronaldo. Hoje foi o absurdo maior, o Bom dia Brasil dedicou todos os blocos a ele. Crise financeira, guerra entre as Coréias, nada disso interessa. O que importa é que o Curíntia teve seu "empate com sabor de vitória" porque o gordo bobo lá fez um gol, e ele tem as bolas de ouro 24 quilates e é foda demais. O que o pai dele sentiu. Meu deus, como é que eu posso ter um dia completo sem saber o que o pai do Ronaldo está sentindo?

Aí vem o intervalo comercial. Cenoura e Bronze, com fator DNA, que protege o DNA da sua pele. Me pergunto como é que as pessoas puderam viver até hoje com seus DNAs desprotegidos. Coisa séria isso. Me lembra um shampoo que comprei certa vez que prometia deixar os cabelos mais lisos graças às proteínas hidrolisadas. Não é preciso fazer faculdade de química para saber o que é hidrólise e que isso não tem nada a ver com alisamento de cabelo.  Mas é isso aí. Pessoal quer saber todos os detalhes sobre o Ronaldo, proteger o DNA da pele e ler no BR Press que "a legging é uma faca de dois gume". E é esse pessoal que consegue empregos bons, que é levado a sério. Lamentável.