Eu sou da geração que assistia o Xou da Xuxa. A Xuxa dizia que a gente tinha que acreditar nos nossos sonhos, e a gente acreditava nela. Eu acreditava nela. Poucos anos depois, quando eu estava ali pela puberdade, fiquei obervando a vida das pessoas por aí. Ví que os adultos trabalhavam em lugares monótonos, tinham famílias chatas, com crianças chatas e faziam programas chatos do tipo ver o Domingão do Faustão. Comigo não era assim, porque minha família é um pouco diferente. "Ainda bem", pensava eu. "Quando crescer, não quero ser como estas pessoas". Eu queria trabalhar em alguma coisa legal, queria nunca ter filhos, porque crianças além de chatas são cruéis, queria nunca ter que ver certas coisas na TV, sentada numa poltrona com cara de cu.
Fiz uma faculdade e até hoje me pergunto se eu deveria ter feito isso mesmo, se eu não deveria ter tentado outra coisa, se eu não deveria estar cursando outra coisa hoje mesmo. Mas no fundo sei que não adianta. Faculdades são ruins, seja qual for. A desilusão sempre é grande, especialmente quando chega a hora de procurar trabalho. É preciso lidar com a insegurança, o que não dá muito certo e ter a mais plena consciência de que as pessoas não estão a fim de pagar aquilo que a gente merece ganhar, porque afinal, todo trabalho é chato. Você pode até gostar de fazer uma determinada coisa, mas no momento em que ela vira um trabalho onde alguém vem dizer como tem que ser feito, mela tudo. No fim, fazer o que gosta não vale a pena hoje em dia. A gente tenta fazer bem feito, se desespera quando não consegue alguma coisa, se preocupa, e no fim, nunca tem reconhecimento, sem falar que tem sempre um cara que parece ser muito melhor fazendo a mesma coisa. Eu estava observando as pessoas de novo, e concluí que o melhor a fazer é arranjar um trabalho monótono mesmo, do tipo que paga um salário meia boca e não traz preocupações em fazer bem feito. Mesmo assim, tem que ter sorte para conseguir arrumar um emprego, qualquer um.
Mesmo não tendo as crianças chatas e o Faustão, o que já me deixa feliz, posso dizer que, de certo modo, estou perdendo a batalha. Eu e muita gente por aí. Não dá para ter esperanças de que as coisas vão melhorar. Este tipo de pensamento é ingênuo, é frustrante quando se vê que não acontece, que as pessoas não querem melhorar as coisas, nunca. Eu podia estar escrevendo palavras bonitinhas, destas que as pessoas gostam, e que encorajam. Mas isso é uma tremenda hipocrisia. O que não entendo é essa dificuldade que as pessoas têm de admitir que as coisas vão mal sim, que tudo anda muito errado e que não parece que alguma coisa vá melhorar. Essa dificuldade de encarar coisas ruins também está errada. E está impedindo qualquer chance de melhorar qualquer coisa, pois é na frustração que se procura uma outra saída. Ninguém quer ser um frustrado, um loser, um ninguém. Por isso, aqueles que o são não conseguem assumir isso. Todo mundo foi rei na última encarnação. Todo mundo acha que é especial, logo deve estar tudo bem. Não. Não está.
