sexta-feira, 27 de março de 2009

Tudo o que eu quiser o cara lá de cima vai me dar

Eu sou da geração que assistia o Xou da Xuxa. A Xuxa dizia que a gente tinha que acreditar nos nossos sonhos, e a gente acreditava nela. Eu acreditava nela. Poucos anos depois, quando eu estava ali pela puberdade, fiquei obervando a vida das pessoas por aí. Ví que os adultos trabalhavam em lugares monótonos, tinham famílias chatas, com crianças chatas e faziam programas chatos do tipo ver o Domingão do Faustão. Comigo não era assim, porque minha família é um pouco diferente. "Ainda bem",  pensava eu. "Quando crescer, não quero ser como estas pessoas". Eu queria trabalhar em alguma coisa legal, queria nunca ter filhos, porque crianças além de chatas são cruéis, queria nunca ter que ver certas coisas na TV, sentada numa poltrona com cara de cu.


Fiz uma faculdade e até hoje me pergunto se eu deveria ter feito isso mesmo, se eu não deveria ter tentado outra coisa, se eu não deveria estar cursando outra coisa hoje mesmo. Mas no fundo sei que não adianta. Faculdades são ruins, seja qual for. A desilusão sempre é grande, especialmente quando chega a hora de procurar trabalho. É preciso lidar com a insegurança, o que não dá muito certo e ter a mais plena consciência de que as pessoas não estão a fim de pagar aquilo que a gente merece ganhar, porque afinal, todo trabalho é chato. Você pode até gostar de fazer uma determinada coisa, mas no momento em que ela vira um trabalho onde alguém vem dizer como tem que ser feito, mela tudo.  No fim, fazer o que gosta não vale a pena hoje em dia. A gente tenta fazer bem feito, se desespera quando não consegue alguma coisa, se preocupa, e no fim, nunca tem reconhecimento, sem falar que tem sempre um cara que parece ser muito melhor fazendo a mesma coisa. Eu estava observando as pessoas de novo, e concluí que o melhor a fazer é arranjar um trabalho monótono mesmo, do tipo que paga um salário meia boca e não traz preocupações em fazer bem feito. Mesmo assim, tem que ter sorte para conseguir arrumar um emprego, qualquer um.


Mesmo não tendo as crianças chatas e o Faustão, o que já me deixa feliz, posso dizer que, de certo modo, estou perdendo a batalha. Eu e muita gente por aí. Não dá para ter esperanças de que as coisas vão melhorar. Este tipo de pensamento é ingênuo, é frustrante quando se vê que não acontece, que as pessoas não querem melhorar as coisas, nunca. Eu podia estar escrevendo palavras bonitinhas, destas que as pessoas gostam, e que encorajam. Mas isso é uma tremenda hipocrisia. O que não entendo é essa dificuldade que as pessoas têm de admitir que as coisas vão mal sim, que tudo anda muito errado e que não parece que alguma coisa vá melhorar. Essa dificuldade de encarar coisas ruins também está errada. E está impedindo qualquer chance de melhorar qualquer coisa, pois é na frustração que se procura uma outra saída. Ninguém quer ser um frustrado, um loser, um ninguém. Por isso, aqueles que o são não conseguem assumir isso. Todo mundo foi rei na última encarnação. Todo mundo acha que é especial, logo deve estar tudo bem. Não. Não está. 

segunda-feira, 23 de março de 2009

O resgate das palavras perdidas

Com a babaquice generalizada e os modismos do século XXI, algumas palavras estão sumindo. É preciso resgatá-las do limbo enquanto é tempo. Listarei algumas das principais:
Melhorar (agora tudo é otimizar), diminuir (agora é tudo minimizar), cabeleireiro (hair designer não existe), idoso (para com isso de "melhor idade"), negro (tudo é visto como racismo), confeiteiro (cake designer sucks), portátil (não existe mais, o que tem agora é "portabilidade e muitas outras palhaçadas terminadas em "bilidade"). Coisa séria.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Te odeio, Brasil!

Estou ressucitando este blog. Não sei mais o que fazer, estou desesperada. Nos últimos 7 dias, todos os noticiários, sites noticiosos e coisas do gênero só falaram em um assunto: Ronaldo. Hoje foi o absurdo maior, o Bom dia Brasil dedicou todos os blocos a ele. Crise financeira, guerra entre as Coréias, nada disso interessa. O que importa é que o Curíntia teve seu "empate com sabor de vitória" porque o gordo bobo lá fez um gol, e ele tem as bolas de ouro 24 quilates e é foda demais. O que o pai dele sentiu. Meu deus, como é que eu posso ter um dia completo sem saber o que o pai do Ronaldo está sentindo?

Aí vem o intervalo comercial. Cenoura e Bronze, com fator DNA, que protege o DNA da sua pele. Me pergunto como é que as pessoas puderam viver até hoje com seus DNAs desprotegidos. Coisa séria isso. Me lembra um shampoo que comprei certa vez que prometia deixar os cabelos mais lisos graças às proteínas hidrolisadas. Não é preciso fazer faculdade de química para saber o que é hidrólise e que isso não tem nada a ver com alisamento de cabelo.  Mas é isso aí. Pessoal quer saber todos os detalhes sobre o Ronaldo, proteger o DNA da pele e ler no BR Press que "a legging é uma faca de dois gume". E é esse pessoal que consegue empregos bons, que é levado a sério. Lamentável.